terça-feira, 15 de maio de 2012

Lendo jornal


Caminhava olhando para seus pés pisando o chão. O caminho para casa já chegando ao fim.
Quem sabe.
Um papel, talvez jornal rasgado no chão. Deve pegá-lo ou continuar sua trajetória? Morre atropelado pela bicicleta do próprio filho pai que tentava protegê-lo do cachorro. Parece interessante a notícia. Já se curva um pouco em direção ao jornal. Os olhos se perdem na frase. Ela o instigava a pegar para ler o restante da notícia que era absurda.
Mas faltam apenas alguns metros para pôr os pés em casa, tomar um banho, descansar do dia, jantar. O cachorro soltara-se. Não mais suportaria ficar sem saber o que havia acontecido ao pai da criança. Mas.
Aquela curiosidade de chegar ao fim de uma manchete, de uma notícia absurda, de uma história. A hora da novela. da coleira de uma mulher. Poderia ver pelo Youtube o episódio mais tarde, alguém colocaria o vídeo depois. O cão, vendo que Pedro (5) pedalava a bicicleta.
Mas como a mulher não conseguiu segurar o cachorro? A fome já sobressaía. Uma pequena dor de cabeça já se fazia sentir. No dia seguinte teria de se levantar mais cedo. , correu latindo e babando, assustando o menino que pedalou depressa. Seu pai, sentado na varanda de casa, viu a cena e, tomado de pânico, correu para a calçada, mas não viu que seu filho já tinha perdido o controle da bicicleta o que acarretou uma forte colisão, sendo o pai arremessado alguns metros de distância. Os vizinhos conseguiram capturar o cachorro e ligaram para os bombeiros, que demoraram cinco horas para chegar ao local, devido a um enorme congestionamento na avenida principal daquele bairro, pois um caminhão chocara-se com um carro que havia parado bruscamente seu trajeto para troca do pneu. Nenhum dos que estavam ali socorreu João (pai de Pedro). Chegando os bombeiros, levaram-no ao hospital geral do município. Causa mortis incerta. Agora Pedro será ouvido pela polícia e logo depois será conduzido aos cuidados da dona do cachorro que irá adotá-lo, pois o menino não tem mãe e outros parentes não se interessaram por ele. Me sinto agora responsável por ele, como deixá-lo sozinho neste mundo? E depois desse evento terrível, meu cão simpatizou com o menino – afirma Márcia, dona do cachorro. O estado encaminhou Pedro a um psicólogo, para acompanhamento.
Agora não há mais tempo. Não há salvação para este incerto transeunte que parou seu certo destino para, por alguns minutos, acompanhar um relato de um jornal do século passado, que, não se sabe como, estava ali a sua espera. Certamente estava.
Se não fosse um jornal, mas um bilhete, ou qualquer outra coisa, ele iria se sentir obrigado a curvar-se, olhar atentamente o dado objeto, curvar-se um pouco mais, estender os braços, tomá-lo com as mãos e, por alguns minutos, ler o escrito.
Não há mais salvação para essa pessoa, pois, de fato, sem ter percebido, há alguém do outro lado da rua que, minuciosamente, o transforma em personagem de uma futura história, um poema, crônica, talvez um conto que rapidamente à caneta em seu rascunho assim começa.


Gabriel Sant'Ana

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