Caminhava olhando para seus pés pisando o chão. O caminho para casa já
chegando ao fim.
Quem sabe.
Um papel, talvez jornal rasgado no chão. Deve pegá-lo ou continuar sua
trajetória? Morre atropelado pela
bicicleta do próprio filho pai que tentava protegê-lo do cachorro. Parece
interessante a notícia. Já se curva um pouco em direção ao jornal. Os olhos se
perdem na frase. Ela o instigava a pegar para ler o restante da notícia que era
absurda.
Mas faltam apenas alguns metros para pôr os pés em casa, tomar um banho,
descansar do dia, jantar. O cachorro
soltara-se. Não mais suportaria ficar sem saber o que havia acontecido ao
pai da criança. Mas.
Aquela curiosidade de chegar ao fim de uma manchete, de uma notícia
absurda, de uma história. A hora da novela. da
coleira de uma mulher. Poderia ver pelo Youtube o episódio mais tarde,
alguém colocaria o vídeo depois. O cão,
vendo que Pedro (5) pedalava a bicicleta.
Mas como a mulher não conseguiu segurar o cachorro? A fome já sobressaía.
Uma pequena dor de cabeça já se fazia sentir. No dia seguinte teria de se
levantar mais cedo. , correu latindo e
babando, assustando o menino que pedalou depressa. Seu pai, sentado na varanda
de casa, viu a cena e, tomado de pânico, correu para a calçada, mas não viu que
seu filho já tinha perdido o controle da bicicleta o que acarretou uma forte
colisão, sendo o pai arremessado alguns metros de distância. Os vizinhos
conseguiram capturar o cachorro e ligaram para os bombeiros, que demoraram
cinco horas para chegar ao local, devido a um enorme congestionamento na
avenida principal daquele bairro, pois um caminhão chocara-se com um carro que
havia parado bruscamente seu trajeto para troca do pneu. Nenhum dos que estavam
ali socorreu João (pai de Pedro). Chegando os bombeiros, levaram-no ao hospital
geral do município. Causa mortis incerta. Agora Pedro será ouvido pela polícia
e logo depois será conduzido aos cuidados da dona do cachorro que irá adotá-lo,
pois o menino não tem mãe e outros parentes não se interessaram por ele. Me
sinto agora responsável por ele, como deixá-lo sozinho neste mundo? E depois
desse evento terrível, meu cão simpatizou com o menino – afirma Márcia, dona do
cachorro. O estado encaminhou Pedro a um psicólogo, para acompanhamento.
Agora não há mais tempo. Não há salvação para este incerto transeunte que
parou seu certo destino para, por alguns minutos, acompanhar um relato de um
jornal do século passado, que, não se sabe como, estava ali a sua espera.
Certamente estava.
Se não fosse um jornal, mas um bilhete, ou qualquer outra coisa, ele iria
se sentir obrigado a curvar-se, olhar atentamente o dado objeto, curvar-se um
pouco mais, estender os braços, tomá-lo com as mãos e, por alguns minutos, ler
o escrito.
Não há mais salvação para essa pessoa, pois, de fato, sem ter percebido,
há alguém do outro lado da rua que, minuciosamente, o transforma em personagem
de uma futura história, um poema, crônica, talvez um conto que rapidamente à caneta
em seu rascunho assim começa.
Gabriel Sant'Ana
Gabriel Sant'Ana
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